22 de outubro de 2009
Um talento espontâneo
Primeiro era a mãe que reclamava a falta de emprego, a ajuda em casa. Depois, passada a fase da paixão nova, até o namorado começou a ficar incomodado, e sugeria Meu bem, por que você não tenta outra coisa até que a carreira decole?Mas, irredutível, Antero seguia perseguindo seu sonho até que soube de um teste de seleção para o elenco de um mega espetáculo. Animado, vestiu sua melhor roupa, fez caras e bocas e, para sua surpresa, foi aprovado.
Parecia delírio atuar ao lado daquela que era a sua musa, a atriz mais premiada do país e um elenco de tamanho porte. Estranhou que não lhe entregarem o roteiro. Também não o chamaram para a primeira leitura conjunta, nem mesmo para os ensaios, mas depositaram na sua conta o valor correspondente àquelas semanas. Só soube o papel no dia do ensaio corrido. Ele seria o falecido coronel, sendo que metade da ação se passava num velório.
Nem dormiu direito na véspera daquela estréia badalada, com direito a paparazi, sua família e o namorado nas primeiras fileiras. Primeiro sinal, segundo sinal, terceiro sinal e a peça começou, intensa. Da coxia, o aspirante assistia a tudo, coração aos pulos, só esperando sua hora de entrar e, finalmente, decolar na carreira. E no tempo combinado, espremeu o corpo robusto dentro do caixão, e mesmo sem falas, era consciente da sua importância na história.
Tudo ia bem, a história caminhava para o clímax, até que um maldito inseto começou a rondar sua face. Quando veio a ferroada, num reflexo absolutamente humano, ele ergueu a mão, abateu o bicho, e o movimento fez o caixão cair do suporte. O teatro veio abaixo de tanto riso, os fotógrafos fizeram a festa e, no final, aquilo que era para ser drama, virou comédia. E nunca mais Antero quis passar perto de uma porta de teatro.
Laura Fuentes
Drosophila Melanogaster
E aí? Veio todo mundo? Não, nem todo mundo. Cadê o Onofre? Aquele desgraçado deve estar enchendo a cara por aí. É o jeito dele encarar toda situação adversa. Tudo bem. Pelo menos ela veio. Sabia que viria. O que é isso em seu rosto? Não chora, minha filha. Por favor. Não chora pois não posso chorar junto com você. Não te vejo a quantos anos? Não quero te rever chorando. Que flores são essas? Flores do campo? Eu lembro de ter especificado que queria rosas. Mas tudo bem. Sem crise. Não é hora de crises. Não mais. Pelo menos são cheirosas e... Mãe, você veio!Me desculpe. Sei como é difícil para você sair de casa. Quem te trouxe...? Ah, Camila. Que bom que você existe, mana. Desculpe tudo o que eu disse. Eu estava irritado, cheio de problemas. Você não tem culpa nenhuma. Você trouxe o Julinho também? Não precisava. Não queria que ele me visse assim. Bom, ele não parece ter se importado muito, se lambuzando com um sorvete. Hum, sorvete... Foco! Não se distraia. Quem... Abreu, meu fiel advogado. Conto com você, hein? Não me decepcione. Jacaré! Acho que nunca te vi de terno. Está elegante, rapaz. Juca? Juca, grande Juca! Só você para vir com uma mulher diferente em cada ocasião. Hoje não ia ser diferente, não é? Juca, o etéreo apaixonado por todas as mulheres do mundo. Tão diferente de mim, né Anita? Ah, minha doce Anita. Sei que não foi como você planejou. Mas acontece. Levante a cabeça e siga em frente. Você tem tanta vida pela frente. Não desperdice esse tempo. Quê? Já? Mas ainda não... Espera, não fecha. Rápido, rápido! Ufa. Consegui. Ainda bem que tenho um narigão. Pronto, pode fechar. Foi o suficiente. Obrigado, obrigado por este último desejo, quem quer que você seja. Sempre quis ser uma mosquinha em meu velório. Obrigado.
Alexandre Heredia
21 de outubro de 2009
Velório
Mas ele pensou: “sabe quando o morto está fresquinho e passa aquela impressão de que ainda está respirando?” Ele poderia aproveitar esta deixa e tirar aquele bicho nojento dali. Talvez um último suspiro. Quem sabe ninguém notasse. Nem Mariazinha, sua esposa, debruçada naquele corpo rijo e gelado, pranteando e ebulindo, conseguia perceber o incômodo de Joaquim. Nem em seu último adeus, Mariazinha não olhou para Joaquim. Só se preocupava com sua dor.
Ah, Mariazinha, Mariazinha! Quanto sofrimento por nada! Você ainda tem a vida e eu, aqui, morto, te olhando de olhos fechados, suportando esse seu peso sobre mim, me banhando em lágrimas, nem sequer pensa em fazer uma última caridade e tirar essa droga dessa mosca do meu nariz. Ah, Mariazinha, bem que eu gostaria de te pegar de jeito e te dar um susto daqueles. Mas agora já é tarde. Assim que você sair daí vão me fechar aqui dentro. Com ou sem mosca.
Mariazinha, lembra no dia em que nos conhecemos? Era uma tarde quente de verão, durante a quermesse da cidade. Já no fim da festa, depois de flertar com você quase que o tempo todo, você me deu uma colher de chá e me deixou te acompanhar até o portão da sua casa. Bendito seja este dia! O padre logo abençoou nosso encontro e agora estamos aqui. Eu mortinho e você vivinha.
O padre chegou rápido para a extrema-unção. Mariazinha se recompôs por um momento, o padre começou a rezar e o pobre Joaquim deu seu último suspiro aliviado. A mosca, espantando-se, foi embora. E o caixão, fechado.
Por Patricia Cytrynowicz
19 de outubro de 2009
Alívio
O sol escorre
Vem o sorriso
Por Patricia Cytrynowicz
Chuva
As folhas dançam
Anoitece
Por Patricia Cytrynowicz
18 de outubro de 2009
haicai Déborah Panachão
E a pétala da flor
A borboleta
Na terra seca
Um sorriso se deita
É chuva que vem
17 de outubro de 2009
Amor aos pedaços
Ao longo da história da humanidade eu havia provocado diversos tipos de reação: nojo, alívio, cobiça, curiosidade. Mas a verdade é que na maioria das vezes eu era sempre eliminada. Sempre menosprezada. Sempre o resto.
Muitas vezes fui esmagada, espalhada, disseminando mal-agouro, fedor. Juntei vermes, juntei doenças, juntei menosprezo, juntei ódio, juntei pragas, juntei mal-dizeres. Nunca ouvi uma palavra de consolo, de compreensão. Até que, jogada na rua, começando a fazer o mal que sempre fiz, um cachorro me cheirou e me quis.
Por Patricia Cytrynowicz
16 de outubro de 2009
Bestiário Besta
Patricia Cytrynowicz
Palavra
Se não mata deixa cicatriz profunda.
Exata.
Fim súbito da respiração.
Do coração.
Corpo gelado.
Morte cortante. Pontual.
Patricia Cytrynowicz
15 de outubro de 2009
peso leve
Peso Leve
André entregou o papel ao pai. Era a terceira suspensão naquele mês. O pai tentou suportar, mas o papel o golpeou sem compaixão. Atingido, o homem comparou as notas baixas do filho com o preço alto da escola. Atordoado, cuspiu a história de sua infância e de como soube aproveitar o pouco que a vida lhe dera. Acuado, jogou-se nas cordas : “Três dias em casa?”. Nocauteado, pegou o telefone: “Sua mãe já sabe disso?”. André negou.
Enquanto o pai combinava com a ex-esposa qual deles faltaria no emprego, o garoto presenciava encantado o poder daquele papelzinho que sempre conseguia fazer com que seus pais se falassem de vez em quando.
Déborah Panachão
O Divã

Hoje tem divã. E estava atrasada. Chegava sempre atrasada na terapia. Levei mais tempo no banho que o habitual e minha cabeça estava à mil. Não sabia o que vestir e fiquei olhando o guarda-roupa aberto. Vesti o de sempre: jeans, camiseta e tênis. Não sabia combinar roupas e acessórios como fazem as moças mais vaidosas. Comecei a rir em frente do espelho quando imaginei que viveria muito feliz e tranquila na China, vestida de azul para sempre, com sapatilhas pretas. Estiquei meus olhos like a chinese girl no espelho. Terapia !
Hoje eu ia falar tudo. Já estava naquele divã há dois anos e não conseguia ir além do cotidiano, da trivialidade superficial. Rodopiava em círculos no consultório confortável. Aquele divã era meu refúgio e masmorra. Não tinha coragem de olhar a terapeuta. Dependendo do dia, o divã virava foguete em direção à Lua, colchão de folhas , barco à vela ancorado, o gigantesco Titanic indo à pique, bote à remo deslizando no vagalhão, prédio em chamas, um Joelma de aflições. Às vezes, o divã chorava copiosamente e emudecia. Outras , eu era lançada e despencava em Chernobyl. E eu, morria imediatamente , intoxicada. Tossia, bebia água e sentia vontade de vomitar. O divã era mágico: virava sala de dança, cama de solteiro desarrumada, sessão de cinema com balinha de hortelã, quarto de hotel da Major Sertório, boate gay loka ou o lindo altar da igreja São Luis. Um divã muito doido.
O metrô , por conta da chuva pesada, estava mais lento. Olhei o relógio , chegaria fora do horário e a terapeuta ia descontar todos os minutos. Quarenta e cinco minutos espremiam-se em trinta. Quando chegou no Anhangabaú, estacionou de vez. No alto-falante avisaram que a Sé tinha problemas. Um "objeto" nos trilhos. Fico sabendo que o treco jogando na linha, era um corpo dilacerado, um suicida.
Terapia, terapia, terapia. Comecei a suar dentro do vagão e olhava o relógio de forma obsessiva e para a pequena sacola que carregava. Um presente. Ouvi que hoje era o aniversário da terapeuta e por impulso comprei um mimo. Hoje eu não ia deitar no divã. Ia encará-la. Dois anos afogada em palavras, imagens e delírios. Aquele divã idiota. O trem andou novamente e eu já estava muito suada de aflição. Imaginei o corpo estraçalhado retirado pelos paramédicos dos trilhos. Deviam removê-lo com pincéis ou uma pá ? Arrepio. Terapia !
Hoje não tem divã. Entrei no consultório, que tinha cheiro de folhas úmidas e perfume suave. Caminhei quase correndo para a sala e sentei na poltrona em frente à dela.
Aquela mulher madura tinha o rosto da atriz Jane Fonda, nos anos 70.
- Não prefere o divã ?, disse.
- Hoje não, respondi. Trouxe um presente prá você. Sei que é seu aniversário. Ouvi na recepção. E estendi a sacola para ela. A terapeuta levantou as sobrancelhas , surpresa.
Disse de forma atabalhoada que tinha atrasado por conta de um suicídio na Sé, nos trilhos do metrô. Estendi uma caixa rosa pequena com uma fita estrombólica para ela.
- Feliz Aniversário ! - e olhei seus olhos hollywoodianos.
A psicóloga abriu a caixa com cuidado e olhou o jogo de damas feito por um designer.
- Um jogo de damas ? , disse e sorriu. Que peça bonita !
- Sim , achei lindo ! , respondi . Olhei fixamente para a Barbarella e disparei:
- Uma dama come a outra.
Pronto, desabafei. Início de sessão: saí do armário.
Patricia M.
* Imagem, escritório do dr.Freud, seu divã
Holocausto negro
Valéria Piassa Polizzi
"O Domador de Furacões" por Bruno Cobbi
"Tempest Elemental" by Wizards of Coast
14 de outubro de 2009
Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo
:: Editora Record, 2001
Você, que vai ler esse livro, será como voar deitado nas plumas macias do dorso de um passarinho, e voar.
Ana Miranda
O Marujo Endiabrado - Bestiários Breves

Patricia M.
O Comodoro Van Hyck era um mentiroso, bêbado e celerado. Eu não confiava nenhum pouco nele, mas admirava sua experiência no mar. Ele não gostava de mim, sabia das minhas histórias escabrosas, mas eu era um marujo que tinha nascido embarcado. Eu não conseguia viver em terra muito tempo. Navegava por instinto. Era o seu segundo homem no comando da fragata holandesa. A viagem até o Sul do Atlântico , pela costa brasileira foi medonha. A tripulação estava muito inquieta com alguns acontecimentos sobrenaturais e falta de ventos. Os homens embarcados são muito sensíveis as alterações do clima, aspectos das nuvens, correntes e vagalhões.
Havia uma interferência , o astrolábio e as cartas marítimas da região mantinham a posição, mas as estrêlas indicavam outra rota. Sem ventos , ficávamos ancorados em alguma baía. Era desesperador. O grumete que servia rum e as refeições ao Comodoro, avistou ao anoitecer uma sereia à estibordo. Começou a gritar feito louco, encantado. Não sei quanto tempo durou a alucinação, mas o garoto quase atirou-se ao mar em desespero. Foi impedido por dois marujos , que o surraram sem piedade. Jogaram-no no porão desmaiado.
Todos tinham medo das lendas que cercavam a região pouco explorada e da estranheza da paisagem exuberante e intocada. As sereias do Atlântico imperavam na imaginação da marujada. E os monstros marinhos dos confins do oceano na em direção a Tristão da Cunha. Para mim não havia isso. Eu sabia que o oceano sempre terminava em algum porto fedorento, em alguma taberna esfumaçada e encardida de carvão, em frente a um prato de peixes com batatas e cerveja escura e na penumbra de um quartinho imundo com algum corpo que eu mal conhecia.
Sei que nos diários de Marco Polo havia relatos de avistamentos de sereias. Mas o meu problema não eram elas, porque eu apreciava sexo com a tripulação, e preferia os garotos aprendizes. Queria corpos de homens. Fui pego em flagrante com um auxiliar da cozinha e fui encarcerado imediatamente.
Julgado sodomita pelo Comodoro, fui deixado numa praia próximo da cidade de Recife. Os marujos foram bondosos comigo, porque junto a minha carcaça destroçada, atiraram um barril de água salobra, um facão e uma frigideira velha e uma Bíblia com a capa em pedaços. Para tanto pecado no corpo, só havia uma solução: morrer naquela solidão. Tantas loucuras cometi e fiquei repetindo na praia que Deus Todo-Poderoso podia me punir da forma que desejasse. Eu era um marujo endiabrado, sem Norte, Sul, Leste ou Oeste. Sem Latitude nem Longitude. Comecei a desenhar na areia minha rota e saber onde estava. Uma praia deserta, nos trópicos, quase desmemoriado e em choque. Fui tatuado em brasa, tive os dedos esmerilhados, sem alguns dentes na boca e meio cego da surra que levei do Comodoro. Minha alma e consciência ardiam.
Achei um riacho que água doce e não sei quanto tempo fiquei lá emborcado. Desmaiei de pavor de saber que estava totalmente só. Durante dias dormi embaixo de coqueiros e improvisei uma cabana de palhas. O sol ficava cada vez mais forte e minha pele abriu-se em chagas. Eram ondas de calor que eu não conseguia aguentar. Acordava assustado, remoendo meu pecados e loucuras e invocava a Deus, que me tomasse pela mão e me levasse para o Inferno.
Passava os dias caminhando pela praia, catando sementes, atirando pedras em passarinhos, abrindo barrigas de tartarugas gigantes. Bebia água do riacho e comia peixes crus. Minha alma não tinha perdão. Queria me atirar do alto das pedras ,os crimes passavam ao largo como caravelas, os mutilados, as dezenas de corpos que degolei sem piedade. Os negros escravos que torturei sem clemência. Dos selvagens sem Deus das Terras Novas do Atlântico e Caribe, que matei sem compaixão. E também as recordações mais inconfessáveis, essas que não ouso dizer o nome.
À tardinha, vi uma ave caindo morta na minha frente: mau presságio.
Mas como já estava de partida para o Inferno, assei-a devagar na areia escaldante e comi com prazer. Deus me levou na Barca do Condenados, à noite, depois de uma febre intensa com delírios e de uma severa crise de diarréia. Na agonia, lembrei que tinha bebido sangue de uma tartaruga, animal sagrado do mar, porque me sentia muito enfraquecido.
Um coro rezava e outro gritava impropérios ao meu redor:
- Sodomita, sodomita, não vai para o Paraíso !
PÉTALAS DE OUTONO

Era tarde de outono. O sol, sempre lindo nesses dias, fazia vibrar meu coração, tão grande a sua luz. Uma brisa. Um sopro dos lábios de mãe sobre a ferida sapeca de um garoto perdido. No canteiro de margaridas, suave, rancou um teco da corola, que voou livre para a incerteza. Infante - meus olhos nunca esqueceram aquela imagem - eu pedalava destemido seguindo a pétala que se apoiava no vento. Parecia mágica, parecia vida. Quanto mais eu pedalava mais o lago crescia. O vento cessou. Era o fim? Amarela, caiu sobre o brilho das águas. Cheguei a tempo de ver a imagem refletida: uma flor.
[Marcos RoMa]
CORAÇÃO DE BESTA

POVARZT. Seu tamanho é o de quem o alimenta. Grotesco, é feito de lixo. Todo lixo produzido no mundo por gente como você e eu. POVARZT fede mas é meigo. Disse meigo e não bom. Cuidado, ele pode acabar com seus sonhos em milésimos. Basta piscar. Melhor não pensar nele, então. POVARZT vive no coração. Vive do seu medo. Joga uns contra outros e outros contra milhares. Os que sobrevivem são os que agem, os que caminham. E por que caminhos caminham? Não sei. De tanto feder e pensar, já morri!
[Marcos RoMa]
13 de outubro de 2009
Tarô dos orixás
Casei-me com um dragão. Escamas reluzentes, olhar afiado, cauda poderosa. Asas pra me levar pra onde eu quisesse. E aquele fogo. Quem resistiria? Mulher alguma resistiria. Eu não resisti.
Na maior parte do dia ficávamos na caverna. Ninguém entrava. A entrada propositadamente chamuscada mantinha os curiosos à distância. Os tesouros reunidos no interior do covil, acumulavam-se aos meus pés. À noite, ele saía. Sobrevoava aldeias calcinando lavouras e choupanas .
Meu pai, o ferreiro, forjava em segredo uma espada para vingar tanta destruição. Já minha mãe, sonhava em voar um dia nas asas de um dragão como o meu.
Diz o tarô que dragões adoram a liberdade. O meu dragão não era diferente. Começou a se demorar nas suas saídas noturnas e quando perguntei o motivo, bufou e soprou seu fogo sobre mim. Tentei fugir, mas quem foge de um dragão? Mulher alguma foge de um dragão. Sucumbi.
Numa manhã, enquanto ele dormia, deixei meu pai entrar. Foi então que soube da espada. O golpe foi certeiro. O sangue do meu dragão escorreu azul até minhas havaianas. Chorei como nunca abraçada àquela cabeça de réptil crescido. O ferreiro foi levado pela polícia. Estava algemado, mas era aclamado como herói: Ogun, Ogun!
E eu? O que faria agora? Talvez voltasse a ler tarô para os turistas na areia.
Deborah Panachão
8 de outubro de 2009
A besta
Valéria Piassa Polizzi
Acerte o bicho
Vamos lá, então? O bichinho desta noite é bem conhecido, apesar de ser uma espécie recente na sauna tupiniquim. O macho desse animal tem uma tonelada de músculos e um vocabulário riquíssimo e eclético, formado por palavras que vão desde neologismos de baixo calão até arcaísmos que remontam à Idade da Pedra, como o grito de guerra “Uhu”. No gênero feminino, apresenta-se no formato curvilíneo e oxigenado e veste calcinhas do tamanho do PIB da Tanzânia, que mal conseguem proteger seu monte Kilimanjaro.
Esse animal é bem safadinho e adora se esconder debaixo do cobertor para acasalar. De hábito noturno, é visto diariamente em uma jaula quadrada ligada à corrente elétrica, durante o horário nobre. Está sempre malhando. Às vezes, quando se sente muito bem disposto, consegue simultaneamente malhar e falar besteira (esta última tarefa, diga-se de passagem, ele realiza com perfeição).
Alimenta-se, entre uma bebida e outra, de fama e sonhos de grandeza. Algumas espécies sonham em ser estrelas da TV. Outras querem apenas ganhar um milhão e desaparecer (para nossa felicidade). Mas a maioria acaba mesmo é sem nada, inclusive sem roupa, e pode ser vista por aí, pendurada nas paredes das melhores borracharias.
Apesar de ter uma vida útil bastante curta, esse animal está se proliferando pelo Brasil e pelo mundo, e hoje já virou uma praga. Infelizmente esse problema não tem recebido atenção do Ministério do Meio Ambiente, que disse estar mais preocupado com um tipo de perereca que está inviabilizando uma obra do PAC.
Então, já adivinhou de quem estamos falando? Hoje foi fácil, né. Apesar de ninguém querer admitir, todo mundo conhece esse animal. É o participante de reality show! Isso mesmo! E o prêmio desta noite é... uma dúzia de ovos podres! Porque o nome do programa é “Acerte o Bicho”! Se for bem no meio da testa, melhor.
[Eduardo Sigrist]
BESTIÁRIO BREVE: ARCANAEL
Maria Anunciação
Tiago Araújo
TEMORES ETÉREOS
De anelos roubados, padeço.
Encobre o sáurio
Em mim.
28 de setembro de 2009
25 de setembro de 2009
o sândalo que escorria do homem
Levedura de Cerveza
Curioso, alguém intenso e corajoso abriu
Surpresa! Quase por inteiro ele sorriu
De dentro amontoadas, as letras mudas, nunca iguais
Um tal de A, um B, um C, várias vogais
Era tanta letra que do saco dava um barril
Juntando uma coa'outra e outra co'uma ele pariu
Uma palavra, uma frase, um conto, letras demais
Um acadêmico diria: isso tem de estar nos anais
Um lunático afirmaria: cadê palavras, tudo sumiu
O escritor escreveria: nada disso, você que nao viu!
E o aprendiz revelaria: são só palavras e nada mais
[Marcos RoMa]
Despertar
[poema de Eduardo Sigrist]
18 de setembro de 2009
13 de setembro de 2009
3 de setembro de 2009
Inutensílios

Em japonês, “chindogu” significa “objeto estranho”, mas talvez a melhor palavra para traduzi-lo seja o neologismo criado por Paulo Leminski: “inutensílio”. Ao que se diz, o conceito foi criado pelo escritor e inventor Kenji Kawakami num livro publicado na década de 1990 sob o título “101 Invenções Inúteis Japonesas: A Arte do Chindogu”. Kawakami imagina (e fabrica) acessórios do cotidiano que são práticos, lógicos, e ao mesmo tempo absurdos, incapazes de ser utilizados. omo por exemplo o seu chapéu para alérgicos, que vem com um rolo da papel higiênico montado no topo. Para sujeitos com rinite, como eu, que às vezes passam o dia inteiro espirrando e assoando o nariz, pode haver algo mais providencial? E menos utilizável?
Tem o protetor contra manchas de molho, uma espécie de “babador” circular em volta do rosto inteiro, que ninguém teria coragem de usar nem em casa, quanto mais num restaurante. Tem a Roupa de Banho Completa, uma espécie de bolha de plástico para pessoas com alergia a água. Tem o Esfregão Para Bebês: enquanto se arrastam de quatro, eles dão polimento na cera do assoalho. Para pouparmos tempo, leitor, vá no http://www.chindogu.com">saite, ou leia esta matéria.
A primeira coisa que me veio à memória ao ver os chindogus de Kawakami foram as invenções abstrusas do pessoal da revista “Mad”, como os parangolés mecânicos de Al Jaffee ou as armas dos espiões (“Spy vs. Spy”) de Alex Prohias. Há também as engenhocas de Rube Goldberg, já comentadas aqui (“A economia Rube Goldberg”, 10.12.2003), e as invenções malucas do marselhês Jacques Carelman, cujo “Catálogo de Objetos Inviáveis” foi editado em 1976 pela Nova Fronteira...
Vou parar a enumeração, pois este jornal inteiro não teria espaço. Estes, caro leitor, são indivíduos que vivem num mundo mais belo e mais livre do que o nosso. Pressionados por uma cultura onde tudo tem que ter valor (seja de uso ou de troca), onde tudo responde ao Mercado, onde tudo tem utilidade e função, estes discretos cronópios correm todos para o prato oposto da balança, e dedicam-se a produzir inutensílios, desaparelhos, futilidades domésticas.
É um gesto filosófico e um gesto político. Com a palavra Kawakami: “Um chindogu é um objeto inútil, mas nem todo objeto inútil é um chindogu”. E ele enumera características para que algo seja um chindogu: “Um chindogu não é para ser usado de verdade. Um chindogu tem que ser algo que possa ser materialmente fabricado. Cada chindogu traz em si o espírito da anarquia. Um chindogu tem que ser um objeto simples, da vida cotidiana. Um chindogu não pode ser vendido. Um chindogu não pode ser criado por razões apenas humorísticas.Um chindogu não pode servir para propaganda. Um chindogu não deve servir para piadas obscenas ou vulgares. Um chindogu não pode ser patenteado. Um chindogu não pode aderir a preconceitos.” Pois é. Quem foi que disse que o mundo estava perdido?
[Texto enviado pelo escritor e compositor Braulio Tavares e publicado por mim no site Cronópios]
2 de setembro de 2009
1 de setembro de 2009
Rodas em Campinas
[foto: Alexandre Toresan]
Terminamos nosso encontro de leituras e reflexões no SESC Campinas com a mais intelectual das disputas já travadas por dois seres humanos. De um lado, o escritor Marco Antonio, estratégico, frio e experiente. De outro, o quadrinista, artista plástico, professor e comics, Alan, sanguíneo, cheio de testosterona, vibrante e sedutor. Façam suas apostas. Fácil dizer quem irá ganhar. Lembrou-me um conto do Patrick Süskind (aquele mesmo do romance “O perfume” que vendeu 15 milhões de exemplares em 40 línguas). Um forasteiro chega a uma cidade do interior alemão. Na praça central, adultos jogam dominó e xadrez. Crianças correm entre pássaros com seus dentes reluzentes. Aliás, o campeão de xadrez da cidade está lá, arrasando com mais um coitado. O forasteiro desafia-o. A cidade entra em comoção. Circulam ávidos em torno dos dois gladiadores estrategistas. As apostas correm soltas. Apesar de toda fama do campeão, todos apostam no forasteiro. O cara tem estilo. É quase moreno. Quase um Delon.
Chave de ouro: O forasteiro é derrotado de forma rápida, sistemática e incontestável. Sorrisos amarelos confundem-se com as cabeleiras esvoaçantes.
civilização
o ovo
o pássaro
o vôo
agora a um passo
precipício
avião sangrando
o poente
indiferente
enjôo
[poema quentinho de Edson Cruz]
31 de agosto de 2009
revelação
uma epifania pessoal
— quase religiosa —
o caminho que escolhi
é o melhor
— entre os caminhos —
é o melhor,
pois foi o que escolhi.
tenha uma certeza
apesar da convicção
que me anima
— quase fanática —
não estou disposto a
enforcar
apedrejar
jogar bombas
atirar
exterminar
abraçar com morteiros no culote
embargar economicamente
eliminar
civilizar
ninguém,
por não compartilhar
de meu júbilo
de minha sina solitária.
[poema recente de Edson Cruz]
12 de agosto de 2009
27 de fevereiro de 2009
FIM DE MORTE
porque nele a gente faz ritmo dela,
até no necrológico, anunciando
morte de Fulano ou de teu irmão.
Para você ter uma idéia,
a morte ritmada
parece uma águia em extinção.
[Poema de Celso Gutfreind, do livro Trechos.]
Postado por Laís Chaffe.
Verso e Prosa
[Octavio Paz no livro O Arco e a Lira, em tradução de Olga Savary - postado por Edson Cruz]
7 de fevereiro de 2009
(mesmo dia)
o que você é. Nem continuação haverá
da sua morte. O sofrimento não erra.
Erra sua vaidade, erra sua
ambição, o sol queima e não deixa
fumaça.
Mexa na consciência, beije
a mosca viva se puder. Veja se consegue
deitar-se de lado (como você faz todas
as noites) na sua essa.
As opções humanas são parentes
e, portanto, obedecem o metro linear.
Ninguém mostra a alma abrindo a camisa.
Vivemos a sentir o que não há.
[Poema do livro um lugar para os dias, de c. ronald, Benúncia Editora, 2008]
6 de fevereiro de 2009
C. RONALD para alguém:
O nosso País não tem grande literatura porque qualquer um que escreve pensa que por escrever é escritor. Escritor não é quem escreve. Escritor é quem vem para mudar o sentido da escrita antes de dizer o que quer.
O escritor é a vontade da frase, é o fim da palavra sem idéias, é a moral do sentido."
São Paulo, 22 de setembro de 2007.
[Introdução ao livro de c. ronald, um lugar para os dias, Benúncia Editora, 2008, que acabo de receber e já gostei.] Edson Cruz
