8 de novembro de 2012

VLAD


nunca amara
amor tal
qual a própria morte

(Celso Ribeiro)

Sem ensaio


(Celso Ribeiro)

Retomada



(Celso Ribeiro)

Ao (.) e (.)





(Celso Ribeiro)

Canto chão


(Celso Ribeiro)

Blue note


piano pia
nú, lamento. pia
no
blue


(Celso Ribeiro)
tem bonsai na sala
jequitibá no quintal
Japão no Brasil


(Celso Ribeiro)

dueto - Dante Felgueiras


um canto de praia
conta com o mar baixando,
o vento soprano

7 de novembro de 2012

Gotas - Anna Amorim













no dorso da mulher
gotas  de chuva escorrem
inverno d´alma.


Anna Amorim, 2012 

2 de novembro de 2012

Oficina de Criação Poética na TERRACOTA

Da esquerda para direita:  Edson Cruz, Rosália Cipriano, Carlos Andrade, Celso Ribeiro, Rosaly Stefani, Anna Amorim e Dante Felgueiras

Poesia não é ficção científica

















"Leia poesia todos os dias de sua vida. Poesia é bom porque exercita músculos que não são utilizados sempre. Poesia expande os sentidos e os mantém em forma. Ela mantém você consciente de seu nariz, olho, ouvido, língua, mão. E, acima de tudo, a poesia é uma metáfora compacta ou um sorriso. Essas metáforas, como flores de papel japonesas, podem se expandir em formas gigantes. As ideias estão em todo lugar nos livros de poesia, embora muito raramente os professores de conto as recomendem para estimular a escrita." [Ray Bradbury, "O Zen e a Arte da Escrita"]

22 de novembro de 2009



Chegou Doce. A revista para quem gosta de viajar pelas baladas paulistanas


Se você é daquelas pessoas que gosta de saber o que há de novo em São Paulo, esta é a sua nova revista. Doce traz quinzenalmente o que está acontecendo no circuito paralelo nas mais diversas áreas: baladas, lugares gostosos de ir e ficar, espaços culturais, comenta o que os famosos gostam de fazer quando não estão em foco. Conta de maneira especial coisas que ninguém nunca disse. Tudo com uma dose mais que alternativa, feita por gente alternativa.

Compre logo sua revista. Doce já está nas bancas.



Revista Doce. Uma publicação da Editora Andando e Letrando.



20 de novembro de 2009

ekosistem


vento açoita o ar
cai a pétala da flor
formiga vai almoçar



Laura Fuentes

18 de novembro de 2009

17 de novembro de 2009

Cinderela Tingida


Patricia M.


Quando abri os olhos, percebi o ambiente. Eu estava desmaiada de verdade. Meus olhos procuraram o relógio de pulso na cabeceira e o abajour de gatinhos. Não vi nada disso. Deitada numa cama enorme num quarto estranho. Virei o corpo com dificuldade e havia uma mulher nua, dormindo na cama, ao meu lado. Ela ressonava baixinho e parecia estar em outra galáxia. Eu também estava nua e minhas roupas estavam pelo chão. E não estava em outra galáxia.

Posso escrever uma tese sobre roupas perdidas na hora do tesão. Porque quando a gente faz amor ou trepa com alguém, as roupas ficam espalhadas, amarrotadas e enrugadas. E esse é o tesão da história. Dá vontade de fumar na janela e tomar cerveja. Em motel é impossível, não curto esse ambiente. Prefiro sofás, chão, tapetes e camas normais.
Onde eu estava ? Onde eu estava ? De repente, o frigobar deu um estrondo e eu fiquei assustada. Eu estava num motel. Minha cabeça e meu estômago giraram com força, e quase que minhas tripas saíram pela boca. Corri para o banheiro e o jato de vômito caiu direto no espelho e na pia. Vomitei litros de bile. Estava tão zonza , que bati com a cabeça no canto da pia. Um enjôo violento. Estava sem nenhuma coordenação motora.
Gemi de dor bem alto e morri de medo de morrer alí naquele cubículo gelado. Banho !
Não, nunca tinha visto aquela mulher que dormia , semi-desmaiada.

Só lembro da madrugada, entrei na Lôka com um amigo para dançar até cair e só.Girei , rodopiei, dancei, suei, tomei um comprimido, bebi montes de drinks infernais. Acordei no motel com uma mulher desconhecida. Chequei a mochila: carteira com RG, dez reais , batom , espelho, carteirinha de cinema , caixa de coloração para cabelo da L'Oreal , chicletes, mp3 , celular com pouca bateria e o livro da faculdade para trabalho, Ana Karenina. Uma roubada a história, setecentas páginas. A coitada se mata por causa do Conde. Mas começa numa levada tão boa e verdadeira que não consegui parar de ler.
Todas as famílias são parecidas entre si, as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira. Nada mais certo, não é mesmo ?


Na recepção disse que estava no quarto 703 e que a moça pagaria a despesa.
O rapaz com cara de sonado, olhou no computador e disse:
- Ela já pagou.
Minha cabeça começou a doer novamente, e me senti muito fraca. Acho que foi o choque com a cabeça na pia. Vai nascer um galo.
- Você pode me dizer onde eu arrumo condução prá chegar no centro da cidade ?
- Na rua de trás passa um ônibus que vai até a Barra Funda. Você pode pegar o metrô ou ônibus.
- Valeu, cara.

Quando cheguei na casa da minha madrasta eu estava quase desmaiando. Entrei na cozinha e aquele cheiro de comida e temperos embrulhou meu estômago. A minha madrasta olhou meus cabelos molhados e soltou:
- Puta vadia ! Lésbica sem vergonha !
Ela sempre me chamava disso e tentava me bater. Eu sempre fugia. Mas desta vez levei um tapão. Ela enchou a mão e eu não saí do lugar.
Eu estava bem atordoada , mas voei para cima dela e a soquei até ela cair. Meu pai apareceu não sei de onde e entrou no pugilato. Dois pratos e uma vasilha foram para o chão. Ele me defendeu
da fúria da madrasta. Daí , ela me esqueceu e foi para cima dele. Ele ameaçou quebrar a tv de LCD 42 polegas novinha. Minha madrasta me xingou até cansar e ameaçou-o de cadeia Foi para a Delegacia e fez um BO contra o meu pai. Agressão. Minha família é foda de ruim. Meu pai me adora, sou filha única. Minha mãe morreu quando eu tinha 4 anos. Sou uma peste encantadora.
Minha madrasta, como já falei , me odeia. Sou uma lésbica pecadora.
Fui para o banheiro me olhar. O mapa do inferno. Cabelos precisando de tinta, corte e hidratação. Uma Cinderela que perdeu o sapatinho na Lôka. Lembrei do livro do Tolstoi e fui pra cama tentar ler mais sobre Anna e sua dor e tentar dormir um pouco.

13 de novembro de 2009

Morte

No meio da calmaria havia uma tormenta que me consumia. A imagem plácida escondia um turbilhão que viria à tona a qualquer momento. Eu deveria passar por aquilo de toda maneira. Era a única direção. Remando em águas claras, mas barrentas, aquele que me guiava cantarolava em meus ouvidos canções ternas que prenunciavam a morte. Era meu moço, que me levava ao meu destino, como havia feito com tantos outros que já foram. Agora chegava minha vez. Vestida de luto, aguardava passivamente meu fim. A margem do lado de lá estava à minha espera. A paisagem serena fixando barquinhos vazios que aguardavam outras sortes espreitava minha angústia. E a vida tinha passado.

Por Patricia Cytrynowicz

12 de novembro de 2009

Doce alegria

No início foi fruta
Tirada do pé
Carregada nos cestos
Lavada com esmero
Picada


Foi massa apurada
Puxada no açúcar
Num tacho antigo
Areado no açude
Distante

Foi conteúdo
De boião emprestado
Limpo e etiquetado
Com escrita
Nenhuma

Foi carga de mula
Puxada no arreio
Pelos cinco garotos
Até a cidade
Vizinha

Comprei há pouco
Na calçada, na rua
Não por muito
Dinheiro

E virou mantimento
Virou alegria
Doce e alegria
Ao mesmo
Tempo

Deborah Panachão

Da glória ao inferno pessoal


Mulheres que toda vida foram muito bonitas têm maior probabilidade de envelhecer mal. Esse é bem o caso de Fernanda Terremoto, que integrou o primeiro cast de bailarinas da Buzina do Chacrinha, o primeiro programa na televisão do Velho Guerreiro, e que resolveu agora, aos 69 anos, contar suas memórias em O massacre do ego – confissões de uma ex-chacrete (Editora Plumax, 190 páginas, R$ 29,00) que vem na esteira dos 20 anos da morte de Abelardo Barbosa.

Nele, a mulata do tipo arrasa quarteirão conta do deslumbre de ter conquistado o país com suas curvas e a expressão sexy nos cerca de cinco closes a que tinha direito toda noite de quinta por quinze anos a fio, mas fala também da queda e do inferno pessoal que se iniciou ao ser despedida em 1970, quando o programa passou a chamar-se Cassino do Chacrinha e a produção reformulou parte do elenco.

De tom confessional, a primeira parte do livro, limita-se a contar o esquema de exploração a que essas garotas eram submetidas, tendo que cumprir programas previamente agendados com fazendeiros, empresários e políticos durante as viagens da Caravana do Chacrinha Brasil adentro, mantidas em esquema de semi cativeiro, e proibidas de manter relacionamentos fixos. Até aí nada de novo, isso já havia sido fartamente exposto pela imprensa e, disso, não há queixas no livro. Muito se falou já sobre as garotas que atuavam com os codinomes Daisy Cristal, Érica Selvagem, Esther Bem-Me-Quer, Fátima Boa Viagem, Garça Dourada, Graça Portellão, Índia Poti, Leda Zepelin, Loura Sinistra, Regina Polivalente, Rita Cadillac, Roseli Dinamite, Sandrinha Radical, Sarita Catatau, Sueli Pingo de Ouro, Valéria Mon Amour, etc. Como elas, Fernanda aceitou o esquema que lhe propiciou construir um pequeno patrimônio.

É na segunda parte do livro, contudo, que a autora traz algo de mais genuíno ao relatar o inferno por que passou quando tentou lidar com a profunda depressão provocada pela súbita e inesperada demissão do programa. Nem o casamento com um rico importador de frutas nissei conseguiu tirá-la da apatia, e ela simplesmente não soube lidar com o fato dos convites para eventos irem rareando assim como o reconhecimento nas ruas. Em pouco tempo, Fernanda foi da glória ao ostracismo absoluto.

Na época, próxima dos 40 anos, vendo na tela o novo time de chacretes composto por garotas bem mais jovens do que ela, ficou obcecada em manter a juventude a qualquer preço e então nas décadas seguintes submeteu-se a uma seqüência de intervenções cirúrgicas que lhe desfiguraram a face a ponto de não ter coragem de sair de casa. Recusava-se a ter filhos para não comprometer a forma física, e isso, aliado à depressão e aos ataques de mau-humor, acabou com o casamento.

O divórcio contribuiu ainda mais para a piora do estado emocional, a ponto dela nem mesmo conseguir manter as amizades. Completamente só, com as economias dilapidadas por tantas cirurgias que se seguiam na tentativa de corrigir os erros das anteriores, tudo o que ela conseguiu foi comprar uma chácara no interior de São Paulo, para onde se mudou com a fiel empregada, na tentativa de se esconder do mundo, limitando-se a sobreviver das poucas economias.

Foram anos de clausura e medo da luz solar. E somente agora, aos 69 anos é que Fernanda parece que conseguiu serenar o terremoto e ter distanciamento suficiente para contar de forma pungente e sincera a sua trajetória que pode servir de alerta para muitas mulheres cuja identidade apóia-se unicamente na beleza física. A ex-Chacrete não se permite fotografar, fotos só as dos áureos tempos. Nem se mostra com o nome verdadeiro. Conta a lenda que é Maria das Graças dos Santos. O importante é que, embora tardiamente, ela compreendeu que a graça de ser mulher também se revela por meio das rugas e dos efeitos da gravidade, e é aí que reside a beleza deste livro que pode servir de alerta a muita gente.


Martin Lourenço, especial para a Revista Terracota

Papo Família


– Minha tia faz igualzinho!

– Sério?

– Sério. Teve um dia num velório aí, nem lembro de quem, e ela não conseguia parar de rir. “Meu pêsames” aqui, “Minhas condolências” ali e ela lá, fazendo mais barulho tentando não rir do que realmente rindo.

– Mas ela ria por quê?

– Acho que é o jeito dela de lidar com o nevosismo. Ou alguém fez um comentário maldoso a respeito do falecido. Ou da viúva. Sei lá.

– É sempre assim, né?

– É...

– A batata está boa?

– Está uma delícia. Quer?

– Não, valeu.

– Eu normalmente não como batata frita. Só quando minha vó faz.

– São boas?

– Nossa, se são! Sabe aquelas que vem no saquinho? Aquelas, que a gente compra no mercado e deixa no freezer. Crocante por fora, macia por dentro, sabe?

– Sei.

– Não chega aos pés da batatinha da minha vó.

– Eu gosto dos bifes que minha vó faz. Meu pai diz que minha mãe não faz bifes. Diz que ela comete bifes.

– Ai, que maldade!

– É sério! Ela consegue estragar até filé mignon. Não sei, ela tem uma capacidade monstruosa de estragar pedaços de carne. Sorte que não é hereditário. Daí, olha só, ela foi e contratou uma cozinheira que conseguia ser pior que ela! Um dia comprei um medalhão de picanha e pedi pra ela preparar. Quando sentei na mesa ela tinha martelado tanto o pobre bife que dava pra enxergar através dele!

– Mentira!

– Juro. Daí pedi pra minha vó me ensinar a fazer os bifes como os delas. Não consigo fazer igual, mas fica bem decente.

– Minha vó também tentou me ensinar a fritar as batatas. Só que as minhas ficam uma porcaria. Mas faço uma salada boa.

– Salada?

– É. Que é que tem?

– Nada.

– Fala.

– Esquece.

– Você vai ver. Um dia a gente vai no sítio do meu tio e você faz a carne e eu faço a salada.

– Teu tio tem sítio onde?

– Em Ibiúna.

– O do meu tio é em Itapetininga. Faz tempo que não vou lá. Só ia quando era moleque.

– No do meu tio ou vou de vez em quando. Mas estou indo menos. É tudo sempre...

– … o mesmo papo. Não é? As mesmas piadinhas. Tenho um tio que sempre que me vê pergunta se eu já comecei a bater punheta... Desculpe.

– Não, tudo bem. Sempre que vou visitar minhas tias elas me perguntam quando é que eu vou casar... Desculpe.

– Relaxa. É chato isso, né? Toda essa...

– Toda essa felicidade. É. Bem chato. Parece que eles chegaram num patamar pequeno burguês ideal e acham que todo mundo tem que seguir a mesma fórmula. Não conseguem entender que a fórmula de felicidade deles pode não dar o mesmo resultado com todo mundo. Eu não quero esse negócio de casinha feliz, cachorro de raça, dois ou três filhos, árvore de natal...

– Vocês fazem natal em família também?

– Afe, nem me diga. Véspera de natal é o pior dia do ano.

– As tias dando ordens da cozinha, os tios enchendo a cara na sala...

– Bate boca, primos ranhentos, futebol, novela, Faustão...

– Roberto Carlos, Xuxa, e, claro...

– Missa do Galo! O que é que as velhas querem tanto com aquele Papa? E ficam pedindo silêncio, pois o locutor narra tudo sussurrando, como se estivesse dentro da igreja...

– Missa com locutor! E lá vem o coroinha, penetra o altar, carrega a taça, passa ao bispo um, que passa pro bispo dois, que dá uma jingadinha e passa para o Papa que pega, levanta e... É BÊNÇÃO!

– E a velharada vai à loucura! Nesse ponto as tias estão cansadas e começam a beber e a reclamar.

– Reclamar dos maridos. É a hora da fofoca. É a hora de falar mal dos que não vieram. Contar os podres de quem não pode se defender.

– É tudo igual, né?

– É...

– Quer mais uma cerveja?

– Quero.

– Como é aquela frase mesmo? Aquela do Dostoiévski. “Todas as famílias são iguais...”.

– “Todas as famílias felizes se parecem entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”.

– Essa mesmo.

– Não é do Dostoiévski. É do Tolstoi. Anna Karenina.

– Ah, é tudo russo. Mas é bem isso, né? Parece que toda família tem a mesma biografia, os mesmos personagens. Pura hipocrisia! É tudo uma camada de glacê num bolo de esterco! Não entendo por que a gente tem que gostar da família obrigatoriamente. A gente não escolhe nem os irmãos que vai ter. Que o diga tios, tias, primos... Que foi?

– Não, nada. Desculpe.

– Fala. Você estava pensando em alguma coisa.

– É que... Bom, não costumo falar sobre isso.

– Fala, vai. É algum podre?

– Meu tio. Marido da minha tia.

– Que é que tem?

– Ele já foi preso.

– Sério?

– Sério. Por agressão e atentado ao pudor.

– Ah, mentira!

– Ele chegou bêbado um dia em casa. Derrubou tudo o que tinha no caminho pro quarto. Quando tirou a roupa e deitou deu de cara com homem na cama. Ele levou um puta susto. Já pensou merda e saiu socando. Foi aquele fuzuê. Maior baixaria.

– E sua tia?

– Então, no final ERA minha tia que ele trombou na cama. Ela tinha cortado o cabelo bem curtinho, que nem aquela mulher da novela, sabe? Ela ia mostrar quando ele voltasse do trabalho, mas ele ficou bebendo com os amigos até tarde. Daí ele...

– Ai, meu Deus!

– Escuta! Daí ele saiu batendo. Deu uns bons socos na minha tia, que saiu correndo. Foi até a rua e começou a gritar por socorro. Meu tio estava tão bêbado que não estava nem aí. Saiu descendo o braço. Ai, meu Deus, isso não é engraçado...

– Claro que é! E aí, rolou a maior baixaria?

– Maior baixaria! Meu tio, quando chegou na luz, acho que reconheceu minha tia, mas estava tão fora de si que misturou tudo. Batia nela como se estivesse batendo nele, mas ficava xingando-a de vagabunda, piranha, essas coisas.

– Nossa...

– Pior: ele estava só de cueca! No meio da rua, esbofeteando a mulher, xingando-a de tudo quanto é nome, só de cueca! Não demorou muito pra chamarem a polícia.

– E sua tia?

– Ela deixou ele ficar preso por dois dias. Depois ficou com pena e retirou as queixas. Mas o casamento não durou muito depois disso. Esse meu tio era um safado. Ficava botando as sobrinhas no colo só pra ficar bolinando. Quando minha tia ficou sabendo disso brigou com toda a família.

– Ela não acreditou?

– Até acho que acreditou. Mas ela não queria se divorciar. Tivemos que aturar os dois discutindo por alguns anos ate eles finalmente se separarem. Toda reunião de família terminava com os dois lavando a roupa suja na frente de todo mundo.

– Ele fez com você?

– O quê?

– Te botou no colo e ficou te bolinando?

– Ah, fez. Várias vezes. E ficava falando baixarias no meu ouvido também. Na época eu não entendia nada. Parecia que ele estava fazendo alguma brincadeira, sei lá.

– O primeiro seio nu que vi na minha vida foi de minha prima.

– Como é?

– A gente estava brincando de “verdade ou desafio”. Eu era moleque de tudo. Minha prima tem quase a minha idade. Mas já tinha, sabe...

– Peitinhos?

– É. daí eu perguntei pra ela “Verdade ou desafio” e ela: “Desafio”. A gente tava meio brigado, nem lembro porque. Queria fazer uma coisa que a deixasse envergonhada. E ela estava toda orgulhosa que já usava sutiã. Ficava se fazendo de madura, sabe? A gente estava no quartinho dos fundos da casa dela. A gente e uma galerinha. Nem pensei duas vezes: “Mostra os peitos!”. A galera vibrou. Ela era a única menina na turma. Ninguém ficou do lado dela. Ela sabia que se não cumprisse o desafio seria expulsa da brincadeira. Tentou barganhar. Tentou diminuir a pena. “Só o lado”. Rapidinho. Mas quanto mais ela se defendia mais a gente colocava regras. No final concordamos em só um dos peitos, mas por dez segundos inteiros. E ela foi lá e pimba, mostrou. A gente ficou que nem besta. Ninguém lembrou de contar o tempo. Daí, na mesma hora, minha tia, mãe dela, chegou.

– Puta merda!

– Imagina a cena: eu, um monte de moleque e minha prima, com um peito de fora. Minha tia ficou puta. Fez um baita escândalo. Deu o maior auê na família. Até hoje não posso chegar perto de nenhuma prima minha que já me olham como se eu fosse um tarado... Tá achando engraçado, é?

– Desculpe!

– Mas no fundo acho que minha prima gostou da experiência. No fundo ela curtiu saber que seus recém adquiridos atributos já eram notados. Claro, ela nunca me disse isso, mas não a vi chorando nem se arrependendo. Nunca mais falamos no assunto. A família rapidinho jogou o glacê em mais essa camada de esterco. Um brinde a essa família perfeita!

– Um brinde!

– Você fica linda sorrindo.

– Ai, adoro essa música! Vamos dançar?

– Claro.


Por Alexandre Heredia

O BOM GOURMET VOLTOU!


O renomado psiquiatra Hannibal Lecter lança em dezembro seu segundo livro de culinária Cooking with the Doctor.

Grande apreciador da culinária exótica, o Dr. Lecter publicou em 2001 How to Cook Your Loved Ones, sucesso de vendas na livraria virtual Barnes and Noble, com mais de oito milhões de cópias vendidas.

Nascido na Lituânia em 1933, Lecter e sua jovem irmã Mischa tornaram-se órfãos em 1944. Momento em que, por necessidade, assumiu as obrigações culinárias da família.

Os pratos criados para o livro possuem em sua maioria influência da cozinha européia mediterrânea. O vinho ideal para acompanhamento, o Chianti.

O doutor sempre tem as melhores receitas. Destaque para o delicioso cerveau d’homme vivent. Um favorito desse colunista.

A versão em Kindle é prometida para o início de 2010.

Bon apetit!

Ricardo Delfin

Serviço:
Livro: Cooking with the Doctor [em inglês]
Autor: Hannibal Lecter
Editora: Brain Scan
Preço: US$ 29,99 [capa dura] – US$ 9,99 [Kindle]
ISBN-10: 0099297701
ISBN-13: 978-0099416838