Mulheres que toda vida foram muito bonitas têm maior probabilidade de envelhecer mal. Esse é bem o caso de Fernanda Terremoto, que integrou o primeiro cast de bailarinas da Buzina do Chacrinha, o primeiro programa na televisão do Velho Guerreiro, e que resolveu agora, aos 69 anos, contar suas memórias em O massacre do ego – confissões de uma ex-chacrete (Editora Plumax, 190 páginas, R$ 29,00) que vem na esteira dos 20 anos da morte de Abelardo Barbosa.
Nele, a mulata do tipo arrasa quarteirão conta do deslumbre de ter conquistado o país com suas curvas e a expressão sexy nos cerca de cinco closes a que tinha direito toda noite de quinta por quinze anos a fio, mas fala também da queda e do inferno pessoal que se iniciou ao ser despedida em 1970, quando o programa passou a chamar-se Cassino do Chacrinha e a produção reformulou parte do elenco.
De tom confessional, a primeira parte do livro, limita-se a contar o esquema de exploração a que essas garotas eram submetidas, tendo que cumprir programas previamente agendados com fazendeiros, empresários e políticos durante as viagens da Caravana do Chacrinha Brasil adentro, mantidas em esquema de semi cativeiro, e proibidas de manter relacionamentos fixos. Até aí nada de novo, isso já havia sido fartamente exposto pela imprensa e, disso, não há queixas no livro. Muito se falou já sobre as garotas que atuavam com os codinomes Daisy Cristal, Érica Selvagem, Esther Bem-Me-Quer, Fátima Boa Viagem, Garça Dourada, Graça Portellão, Índia Poti, Leda Zepelin, Loura Sinistra, Regina Polivalente, Rita Cadillac, Roseli Dinamite, Sandrinha Radical, Sarita Catatau, Sueli Pingo de Ouro, Valéria Mon Amour, etc. Como elas, Fernanda aceitou o esquema que lhe propiciou construir um pequeno patrimônio.
É na segunda parte do livro, contudo, que a autora traz algo de mais genuíno ao relatar o inferno por que passou quando tentou lidar com a profunda depressão provocada pela súbita e inesperada demissão do programa. Nem o casamento com um rico importador de frutas nissei conseguiu tirá-la da apatia, e ela simplesmente não soube lidar com o fato dos convites para eventos irem rareando assim como o reconhecimento nas ruas. Em pouco tempo, Fernanda foi da glória ao ostracismo absoluto.
Na época, próxima dos 40 anos, vendo na tela o novo time de chacretes composto por garotas bem mais jovens do que ela, ficou obcecada em manter a juventude a qualquer preço e então nas décadas seguintes submeteu-se a uma seqüência de intervenções cirúrgicas que lhe desfiguraram a face a ponto de não ter coragem de sair de casa. Recusava-se a ter filhos para não comprometer a forma física, e isso, aliado à depressão e aos ataques de mau-humor, acabou com o casamento.
O divórcio contribuiu ainda mais para a piora do estado emocional, a ponto dela nem mesmo conseguir manter as amizades. Completamente só, com as economias dilapidadas por tantas cirurgias que se seguiam na tentativa de corrigir os erros das anteriores, tudo o que ela conseguiu foi comprar uma chácara no interior de São Paulo, para onde se mudou com a fiel empregada, na tentativa de se esconder do mundo, limitando-se a sobreviver das poucas economias.
Foram anos de clausura e medo da luz solar. E somente agora, aos 69 anos é que Fernanda parece que conseguiu serenar o terremoto e ter distanciamento suficiente para contar de forma pungente e sincera a sua trajetória que pode servir de alerta para muitas mulheres cuja identidade apóia-se unicamente na beleza física. A ex-Chacrete não se permite fotografar, fotos só as dos áureos tempos. Nem se mostra com o nome verdadeiro. Conta a lenda que é Maria das Graças dos Santos. O importante é que, embora tardiamente, ela compreendeu que a graça de ser mulher também se revela por meio das rugas e dos efeitos da gravidade, e é aí que reside a beleza deste livro que pode servir de alerta a muita gente.
Martin Lourenço, especial para a Revista Terracota