8 de novembro de 2012

Belas Tietas


(vai além de motes triviais que eclodem de decotes)

no velho casario de calçada estreita
miro-a na janela

a moça da novena
filha de Maria

chama acesa vela
sopra-a quem desvia

nega o que diz, mente
a tal que se diz pia

santa qual rameira
é Tieta bela, da que se disputa

gume cego é corte
pra quem diz afia

como a mãe viúva
da que foi donzela

é Tieta puta
da que se revela

só se dá novelo
a quem se diz fia

a que se diz fruta
como a da janela


(Celso Ribeiro)

Hom'aranha (bestiário)


teias, laços
profusão de cores

emaranhei-me
à sanha da fera

sei-me ceia
sabe-se musa

úmida
aranha

tão bela
feia

(Celso Ribeiro)

Gestões

arrisquei-lhe
logomarca
sacou-me logotipo

confessei-lhe
carência
advertiu-me prazo

afaguei-lhe
liberal
sugeriu-me tabela

envolvi-lhe
bruto
diluiu-me líquido

investi-lhe
tributário
promoveu-me sênior

versei-lhe
excell
ressuscitou-me Terra

publiquei-lhe
outdoor
faturou-me royalties

posicionei-lhe
xeque
xingou-me nominal

jurei-lhe
juro
concedeu-me mora

presenteei-lhe
bolsa
cambiou-me alta

roubei-lhe
selo
intimou-me precatória

vesti-lhe
renda
encantou-me fixa

gesticulei-lhe
libras
redigiu-me com trato

desnudei-lhe
cara
empossou-me coroa

contei-lhe
Normas
confessou-me Dow Jones

julguei-lhe
no vermelho
alertou-me commodities

estendi-lhe
mão-de-obra
negou-me mais-valia

cantei-lhe
protocolo
liberou-me aduaneira

apresentei-lhe
business
revelou-me atriz

beijei-lhe
metas
amou-me gestão

sou-lhe
diretor
és-me diretriz

(Celso Ribeiro)

Análise e interpretação



BARRA
[do livro “Cais” de Alberto Martins, Ed. 34]

Por aqui ainda se morre
de simples destempero
basta ignorar as lajes
o vento
basta romper a barra
em hora estreita:
vais pescar em águas turvas
ao som de nenhuma sereia.

VLAD


nunca amara
amor tal
qual a própria morte

(Celso Ribeiro)

Sem ensaio


(Celso Ribeiro)

Retomada



(Celso Ribeiro)

Ao (.) e (.)





(Celso Ribeiro)

Canto chão


(Celso Ribeiro)

Blue note


piano pia
nú, lamento. pia
no
blue


(Celso Ribeiro)
tem bonsai na sala
jequitibá no quintal
Japão no Brasil


(Celso Ribeiro)

dueto - Dante Felgueiras


um canto de praia
conta com o mar baixando,
o vento soprano

7 de novembro de 2012

Gotas - Anna Amorim













no dorso da mulher
gotas  de chuva escorrem
inverno d´alma.


Anna Amorim, 2012 

2 de novembro de 2012

Oficina de Criação Poética na TERRACOTA

Da esquerda para direita:  Edson Cruz, Rosália Cipriano, Carlos Andrade, Celso Ribeiro, Rosaly Stefani, Anna Amorim e Dante Felgueiras

Poesia não é ficção científica

















"Leia poesia todos os dias de sua vida. Poesia é bom porque exercita músculos que não são utilizados sempre. Poesia expande os sentidos e os mantém em forma. Ela mantém você consciente de seu nariz, olho, ouvido, língua, mão. E, acima de tudo, a poesia é uma metáfora compacta ou um sorriso. Essas metáforas, como flores de papel japonesas, podem se expandir em formas gigantes. As ideias estão em todo lugar nos livros de poesia, embora muito raramente os professores de conto as recomendem para estimular a escrita." [Ray Bradbury, "O Zen e a Arte da Escrita"]

22 de novembro de 2009



Chegou Doce. A revista para quem gosta de viajar pelas baladas paulistanas


Se você é daquelas pessoas que gosta de saber o que há de novo em São Paulo, esta é a sua nova revista. Doce traz quinzenalmente o que está acontecendo no circuito paralelo nas mais diversas áreas: baladas, lugares gostosos de ir e ficar, espaços culturais, comenta o que os famosos gostam de fazer quando não estão em foco. Conta de maneira especial coisas que ninguém nunca disse. Tudo com uma dose mais que alternativa, feita por gente alternativa.

Compre logo sua revista. Doce já está nas bancas.



Revista Doce. Uma publicação da Editora Andando e Letrando.



20 de novembro de 2009

ekosistem


vento açoita o ar
cai a pétala da flor
formiga vai almoçar



Laura Fuentes

18 de novembro de 2009

17 de novembro de 2009

Cinderela Tingida


Patricia M.


Quando abri os olhos, percebi o ambiente. Eu estava desmaiada de verdade. Meus olhos procuraram o relógio de pulso na cabeceira e o abajour de gatinhos. Não vi nada disso. Deitada numa cama enorme num quarto estranho. Virei o corpo com dificuldade e havia uma mulher nua, dormindo na cama, ao meu lado. Ela ressonava baixinho e parecia estar em outra galáxia. Eu também estava nua e minhas roupas estavam pelo chão. E não estava em outra galáxia.

Posso escrever uma tese sobre roupas perdidas na hora do tesão. Porque quando a gente faz amor ou trepa com alguém, as roupas ficam espalhadas, amarrotadas e enrugadas. E esse é o tesão da história. Dá vontade de fumar na janela e tomar cerveja. Em motel é impossível, não curto esse ambiente. Prefiro sofás, chão, tapetes e camas normais.
Onde eu estava ? Onde eu estava ? De repente, o frigobar deu um estrondo e eu fiquei assustada. Eu estava num motel. Minha cabeça e meu estômago giraram com força, e quase que minhas tripas saíram pela boca. Corri para o banheiro e o jato de vômito caiu direto no espelho e na pia. Vomitei litros de bile. Estava tão zonza , que bati com a cabeça no canto da pia. Um enjôo violento. Estava sem nenhuma coordenação motora.
Gemi de dor bem alto e morri de medo de morrer alí naquele cubículo gelado. Banho !
Não, nunca tinha visto aquela mulher que dormia , semi-desmaiada.

Só lembro da madrugada, entrei na Lôka com um amigo para dançar até cair e só.Girei , rodopiei, dancei, suei, tomei um comprimido, bebi montes de drinks infernais. Acordei no motel com uma mulher desconhecida. Chequei a mochila: carteira com RG, dez reais , batom , espelho, carteirinha de cinema , caixa de coloração para cabelo da L'Oreal , chicletes, mp3 , celular com pouca bateria e o livro da faculdade para trabalho, Ana Karenina. Uma roubada a história, setecentas páginas. A coitada se mata por causa do Conde. Mas começa numa levada tão boa e verdadeira que não consegui parar de ler.
Todas as famílias são parecidas entre si, as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira. Nada mais certo, não é mesmo ?


Na recepção disse que estava no quarto 703 e que a moça pagaria a despesa.
O rapaz com cara de sonado, olhou no computador e disse:
- Ela já pagou.
Minha cabeça começou a doer novamente, e me senti muito fraca. Acho que foi o choque com a cabeça na pia. Vai nascer um galo.
- Você pode me dizer onde eu arrumo condução prá chegar no centro da cidade ?
- Na rua de trás passa um ônibus que vai até a Barra Funda. Você pode pegar o metrô ou ônibus.
- Valeu, cara.

Quando cheguei na casa da minha madrasta eu estava quase desmaiando. Entrei na cozinha e aquele cheiro de comida e temperos embrulhou meu estômago. A minha madrasta olhou meus cabelos molhados e soltou:
- Puta vadia ! Lésbica sem vergonha !
Ela sempre me chamava disso e tentava me bater. Eu sempre fugia. Mas desta vez levei um tapão. Ela enchou a mão e eu não saí do lugar.
Eu estava bem atordoada , mas voei para cima dela e a soquei até ela cair. Meu pai apareceu não sei de onde e entrou no pugilato. Dois pratos e uma vasilha foram para o chão. Ele me defendeu
da fúria da madrasta. Daí , ela me esqueceu e foi para cima dele. Ele ameaçou quebrar a tv de LCD 42 polegas novinha. Minha madrasta me xingou até cansar e ameaçou-o de cadeia Foi para a Delegacia e fez um BO contra o meu pai. Agressão. Minha família é foda de ruim. Meu pai me adora, sou filha única. Minha mãe morreu quando eu tinha 4 anos. Sou uma peste encantadora.
Minha madrasta, como já falei , me odeia. Sou uma lésbica pecadora.
Fui para o banheiro me olhar. O mapa do inferno. Cabelos precisando de tinta, corte e hidratação. Uma Cinderela que perdeu o sapatinho na Lôka. Lembrei do livro do Tolstoi e fui pra cama tentar ler mais sobre Anna e sua dor e tentar dormir um pouco.

13 de novembro de 2009

Morte

No meio da calmaria havia uma tormenta que me consumia. A imagem plácida escondia um turbilhão que viria à tona a qualquer momento. Eu deveria passar por aquilo de toda maneira. Era a única direção. Remando em águas claras, mas barrentas, aquele que me guiava cantarolava em meus ouvidos canções ternas que prenunciavam a morte. Era meu moço, que me levava ao meu destino, como havia feito com tantos outros que já foram. Agora chegava minha vez. Vestida de luto, aguardava passivamente meu fim. A margem do lado de lá estava à minha espera. A paisagem serena fixando barquinhos vazios que aguardavam outras sortes espreitava minha angústia. E a vida tinha passado.

Por Patricia Cytrynowicz